Faz um tempo que parei de pensar em relógios. Parei de buscar relógios, de querer saber tudo sobre eles. Que parei de ser perseguida pelo meu relógio de infância.
Não foi uma decisão. Não houve um momento específico em que eu disse "chega, assunto encerrado". Foi mais como quando uma música termina e você só percebe o silêncio alguns segundos depois, quando já está instalado, quieto, ocupando o espaço que antes era cheio.
O hiperfoco tem essa qualidade de barulho. Não o barulho que incomoda, mas o tipo que preenche: cada canto da cabeça ocupado com alguma coisa nova pra saber, comparar, catalogar. Pra me importar. Eu me importava. Muito. E então parei.
O silêncio depois de um hiperfoco é uma coisa estranha de explicar pra quem não conhece, pra quem nunca viveu um hiperfoco (desculpa, neurotípicos). Parece que deveria doer – afinal, era algo que eu estava amando, e agora simplesmente não está mais lá. Mas não dói. É alívio.
É como tirar uma casquinha de milho de pipoca que ficou presa entre seu dente e sua gengiva, sabe? Disso você sabe, sim.
Mas eu ainda me pego olhando pro meu pulso, pro relógio que ainda está lá (um Baby-G BGD 5650 com pulseira de nylon), e sinto algo próximo da ternura, a mesma que se sente por uma fase que passou. Não saudade. Não perda. Só o reconhecimento de que foi real enquanto durou, e que foi bom – dessa vez, pelo menos.
Acho que é isso que o nome do blog sempre quis dizer, antes mesmo de eu entender direito. Um monte de retalhos, pedaços que já foram o centro de tudo e agora são parte pequena do tecido. Cada hiperfoco deixa alguma coisa: um conhecimento, um objeto, uma forma nova de ver. E então vem o silêncio, e o silêncio também deixa muita coisa, mas principalmente duas: conhecimento e descanso. A leveza de não precisar saber.
Agora estou aqui, nesse intervalo entre um hiperfoco e o próximo, sem pressa nenhuma, aproveitando o silêncio. Quando o próximo barulho chegar, vai me encontrar pronta e sem abafadores.