Comprar um relógio no Brasil é, normalmente, fácil: você escolhe o modelo que mais te agrada, seja on-line ou em uma loja física, paga e vai embora com seu relógio novo, ou espera ele chegar no seu endereço (se a compra for on-line). No entanto, algumas marcas não vendem apenas marcadores de horas, mas poder enlatado em caixas de titânio com alguns parafusos e algumas engrenagens. Esse é o caso da Rolex.

Já parou pra pensar em como funciona o processo de aquisição de um relógio Rolex? Se não pensou, eu pensei e pesquisei por você. Te explico agora.

Comprar um Rolex não te exige apenas dinheiro. Dinheiro, aliás, é o óbvio. Se você quer ter um Rolex, você precisa ter influência.

A Rolex não vende diretamente ao consumidor final. Os relógios chegam exclusivamente por meio de revendedores oficiais – joalherias e relojoarias de alto padrão autorizadas pela marca. Comprar fora dessa rede significa abrir mão da garantia oficial e correr riscos sérios de autenticidade.

Na loja, um consultor especializado apresenta os modelos disponíveis e conversa sobre suas preferências. Para os modelos mais desejados, como Daytona, por exemplo, é comum entrar em uma lista de espera – que pode durar meses ou até anos.

É aí que entra o poder da influência: seu relacionamento com a loja, seu histórico com produtos da marca e sua importância na sociedade (fama) podem diminuir o tempo de espera.

Chegado o dia da compra após a espera, prepare-se para desembolsar alguns milhares de reais (dezenas deles, os preços podem ser inimagináveis). Os preços, que são tabelados*, ficam disponíveis no site da Rolex Brasil. Você vai receber:

  • seu novo Rolex, com caixa e manuais
  • o cartão da garantia, que é válida por 5 anos e é registrada digitalmente

Pronto. Felicidade com Rolex no pulso. Poder em caixa redonda.

E é justamente aí que vale parar e pensar. Num mundo onde bilhões de pessoas não têm acesso a necessidades básicas, construímos sistemas sofisticados (listas de espera, hierarquias de clientes, consultores treinados) para garantir que pouquíssimas pessoas possam adquirir um objeto cujo único propósito real é dizer, sem dizer, eu posso e você não pode. O Rolex marca as horas, sim, mas marca, principalmente, as distâncias.

Não há nada de errado em admirar engenharia, artesanato ou design. O problema está em como a sociedade transformou esses objetos em passaportes sociais. E em como todos nós, de alguma forma, aprendemos a respeitar quem os carrega no pulso.

No fim, o relógio mais caro do mundo continua fazendo a mesma coisa que o mais barato: te lembra que o tempo passa. Para todo mundo, igualmente, sem lista de espera.

*apesar de tabelados, os preços dependem da cotação do dólar, da disponibilidade do relógio no mercado e da importância que você tem na sociedade